Mass Effect e sua Critical Mission Failure

SPOILERS DE MASS EFFECT 3.

Atualizado: 16/04/12.

A seguir, minha percepção do final de ME3 (spoiler alert: ele é uma droga), com comentários gerais sobre a série e o porquê dela ser excelente até os últimos 10 minutos de Mass Effect 3.

CRITICAL MISSION FAILURE.

Certo. Atualmente, vendo os excelentes artigos da Forbes, as reclamações generalizadas dos fãs, muitos vídeos-review e uma parte dos so-called jornalistas de videogame reagirem com horror pelo fato de uma tal “minoria vocal” estar tão desapontada com o final de Mass Effect 3 me fez querer escrever um pouquinho sobre toda essa desgraceira.

Eu ainda tenho que encontrar alguém que jogou os três games, se entusiasmou com a história e os personagens e verdadeiramente gostou do final. Chamar de minoria aqueles que não gostaram é ridículo e condescendente — até mesmo boa parte daqueles que não se importaram tanto admitem que o final, no mínimo, “não é bom”.

Eu não vejo o que há de tão escandaloso uma campanha decente e em geral respeitosa de gamers que arrecadou mais de $80.000 para a caridade. É melhor trollar em fóruns e continuar agindo feito criança sem doce? Eu não posso dizer que concordo com a noção de que a Bioware nos deve um final decente e que ela o deve fazer de graça, se é que isso vai de fato se concretizar. Mas eu não vejo porque deveríamos ficar quietos quando o resultado de tanto tempo e dinheiro investido foi um tapa na cara.

A maioria dos que jogaram, gostando ou não do final, em geral concordam que Mass Effect 3 é um jogo excelente, quase merecedor de 10/10 até os últimos minutos. Eu não tenho problemas em dizer que ME3 é muito bom e eu recomendaria a série para qualquer um com o interesse, mas não há como negar o impacto sobre os fãs, não apenas do final em si, mas da forma como ele foi realizado. A ideia apresentada foi tão absurda e fora de contexto que a 4º parede foi quebrada e tudo o que as pessoas conseguiram pensar foi “… what the fuck?” ou algo similar. Você acha que está preparado para um final ruim, mas não, realmente você não está.

Antes de tudo, acho necessário que as pessoas que criticam os fãs decepcionados entendam o porquê desse mau sentimento. NÃO é porque não tivemos um “final feliz”. NÃO é porque Shepard morre e mimimi. É porque nada do que fizemos durante toda essa trilogia teve qualquer efeito relevante sobre o final (o que vai contra o que foi assegurado em inúmeras ocasiões anteriores), e os últimos dez minutos simplesmente descartam ou negam muito dos temas importantes que ME estabeleceu ao longo dos anos. Além disso, não há qualquer tipo de resolução para os personagens e o universo de ME. Vamos lá.

A união é um dos conceitos mais importantes de ME. Desde o primeiro jogo, um dos seus trabalhos mais importantes é conseguir a cooperação de indivíduos diferentes e fazê-los deixar de lado as suas antigas brigas. Em ME3 isso é mais essencial do que nunca e ao longo do jogo, Shepard deve ajudar todas raças intergaláticas a abrirem mão destes tipos de problemas e ficarem unidos em prol de um futuro para todos. Não é homogeneizar, mas sim aceitar as diferenças e construir coisas melhores a partir disso.

Para resumir o papo, a história básica e extremamente abreviada da série Mass Effect é a seguinte: existe uma raça hiper avançada e muito antiga de máquinas sapientes conhecidas como Reapers. A cada 50.000 anos, eles devastam a civilização galática mais avançada e este ciclo já aconteceu incontáveis vezes. A última raça a sofrer deste destino conseguiu deixar pistas para os próximos da lista: nós humanos e diversas outras raças, o que aparentemente já é algo incomum — em geral as últimas ocorrências da destruição pelos Reapers sempre se deram no momento em que havia uma única raça predominante capaz de viajar pelo espaço. O/A Comandante Shepard é o líder na luta contra os Reapers e movimenta diversas facções, governos, pessoas e raças inteiras a se unir contra este novo ciclo de destruição que têm início logo no planeta Terra em ME3.

É aí que entra o Catalyst kid, personagem literalmente apresentado nos últimos dez minutos do jogo. Ele lhe dá uma explicação e três opções. Basicamente, Shepard é informado de que os seres sintéticos criados pelos orgânicos, com o tempo, sempre se rebelarão contra eles, criando devastação e caos. É por isso que essa entidade criou os Reapers, a fim de evitar que isso acontecesse. Como o meme diz, então você criou uma raça inorgânica para destruir a vida orgânica porque os inorgânicos sempre revidarão contra os orgânicos? Hein?

Além da explicação não fazer o menor sentido, Shep consegue provar que ele está errado, e isso acontece no próprio ME3: ele une os quarians e os geth, criadores e sintéticos, respectivamente, depois de um longo período de guerra que fez com que os quarians fossem obrigados a deixar seu próprio planeta, forçando-os a viver como ciganos espaciais, basicamente. Quando os geth adquiriram a noção de sua própria existência e se tornaram sapientes, uma seção dos quarians entrou em pânico e decidiu que o extermínio era o único caminho. Os geth revidaram a fim de sobreviver e assim por diante.

Apesar disso, e de mais de 100 anos de guerra entre eles, Shepard conseguiu unir ambas as raças ao apelar pela compreensão não apenas de um perigo maior — os Reapers — mas também por outra coisa que vale a pena lutar: a vida. A possiblidade dos quarians voltarem a seu planeta natal e conviver pacificamente com os geth agora é uma realidade; não vai ser imediato e fácil, mas o passo foi dado e o resto é uma questão de tempo.

Shepard teve o enorme trabalho de acabar este conflito que permeou os três jogos (um dos muitos, sendo que há pelo menos mais um com repercussões de grande nível como este) e o Catalyst kid não apenas nega, mas ignora toda essa ação. A convivência entre orgânicos e inorgânicos é possível, o Comandante acabou de provar isso! O mais enfuriante é o fato de Shepard não poder replicar o que está sendo dito a ele. Por que não temos um círculo de diálogo para interagir com o Catalyst kid? Por que não podemos mandar ele se ferrar? (“Lots of speculation from everyone!”, frase rabiscada e real de um dos produtores de ME3 em um rascunho do final)

As três opções que ele te dá são ainda piores. Control te permite controlar os Reapers, mas Shep morre e o problema dos Reapers não é resolvido, pois eles podem voltar depois de mais alguns milênios, ou algo do tipo. Destroy acaba com todos os seres inorgânicos, incluindo os geth e a EDI, a inteligência artificial que é uma de seus squadmates e habita a nave de Shepard (Shep respira por meio segundo neste final). Synthesis é, na teoria, o “melhor final” (e foi o que acabei escolhendo quando joguei) mistura o DNA de sintéticos e orgânicos (I don’t even…) a fim de tornar todos da mesma espécie, então encerrando o conflito, mas Shep novamente deve se sacrificar. Engraçado que o aparente “melhor final” prega o fim da tolerância e das diferenças através da homogeneização, que vai contra tudo que foi dito nos últimos dois jogos e na maior parte deste. (“Victorious and uplifting ending!”, outra frase vergonha-alheia rabiscada na mesma página da frase anterior)

O Javik, squadmate Prothean (é uma longa história, mas ele é um sobrevivente do último ciclo de extinção dos Reapers) confirma a ideia de que as diferenças são as maiores vantagens: ele te diz na cara dura que os Protheans falharam na luta contra os Reapers por não terem diversidade em seu pessoal. Por mais avançados que eles fossem, eram um grupo homogêneo demais e completamente sozinhos nesta luta. Outro apoio a isto é o fato dos últimos ciclos sempre acontecerem apenas com uma única raça absolutamente predominante, diferente da situação atual em ME.

As escolhas podem ser ridículas, mas nada é pior do que acontece logo em seguida. Qual a diferença real entre estes três finais? E qual o suposto impacto que deveria existir em todas as grandes escolhas que você fez ao longo dos três jogos? Nenhum. A não ser que você considere a cor das explosões como finais diferentes. Ver o excelente vídeo abaixo, que compila as principais possibilidades de final, rodando ao mesmo tempo.

Isso pode não parecer grande coisa se você nunca jogou Mass Effect, mas a escolha sempre foi um fator-chave nesta série. Você tem a possibilidade de importar suas decisões anteriores nos novos jogos, enriquecendo a história e a construção de seu Shepard e do mundo em geral. Em ME2, isso foi feito de uma forma incrível: na missão final, havia a real possibilidade de todos os seus companheiros morrerem, e até mesmo Shepard poderia bater as botas, ganhando uma espécie de final especial. Havia grandes decisões a tomar, como ao longo de toda a trilogia: é melhor exterminar uma raça ou realizar lavagem cerebral nela para acabar com um conflito? Confiar informações potencialmente valiosas a respeito dos Reapers a uma organização terrorista pouco confiável ou destrui-las de vez, possivelmente estragando para sempre as suas chances contra eles? Grandes decisões, por vezes altamente introspectivas e éticas, sempre fizeram parte da série ME.

No final (singular), Reapers são subjugados, energia atinge os Mass Relays (mecanismos criados secretamente pelos Reapers que permitem viagens FTL), que desencadeia em outros Mass Relays destruindo eles para sempre. A Normandy cai em um planeta tropical. Fim. Isso acontece em “todos os finais diferentes”.

Algumas pessoas tiveram problemas com relação à destruição dos Mass Relays, mas não eu. Um aspecto por vezes mencionado nos games é o fato de que eles e a estação Citadel foram populados por todas as raças sem a preocupação em destrinchar a tecnologia e compreender seu real funcionamento e origem. Isso permite que o Reaper Sovereign faça seu discurso sobre como o avanço das raças atuais aconteceu conforme os moldes fornecidos por eles e que nós apenas evoluímos de acordo com o desejo deles, o que eu acho animal. Para mim, faz sentido ter sido um erro confiar nesta tecnologia desconhecida sem se preocupar em desenvolver algo similar no caso de Algo Muito Ruim Acontecer, como ser revelado que isso era tecnologia Reaper ‘disfarçada’. Ops!

A destruição dos Mass Relays quer dizer que as viagens rápidas entre galáxias não são mais possíveis, o que torna as coisas muito complicadas para todos em geral, que vão ficar sem contato entre si. Mais preocupante ainda é que no final, a maior concentração das forças galáticas está no Sistema Solar, lutando contra os Reapers no planeta Terra; basicamente, eles agora estão presos sem mantimentos e recursos para se sustentar. Isso é um problema, mas não considero inviável a cooperação mútua ainda resolver uma parte dessa situação, apesar disso ser realmente uma situação muito dúbia.

Como eu disse anteriormente, o problema não foi o fato de ser um final “sóbrio” ou “triste” (eu particularmente pularia estas duas palavras e usaria uma terceira: “ridículo”). O problema é justamente esta completa falta de escolha sobre o seu próprio destino diante de um mecanismo claramente criado de última hora e a falta de resolução quanto a tudo. Não gostamos de ME apenas pelo gameplay; uma das coisas mais legais da série são seus personagens. Todo mundo que jogou a trilogia completa tem uma listinha pronta na cabeça de seus personagens preferidos, os mais detestados, os que morreram durante sua jogatina. A conexão emocional que realizamos ao longo de três jogos com os inúmeros personagens nos motivam a jogar, a conversar com eles, a ouvir seus diálogos e dilemas. E o que aprendemos sobre o destino deles? Absolutamente nada. Não sabemos nem se eles morreram ou não. Além dos personagens então, o que aconteceu com as raças que ajudamos a unir? Humanos, asari, turians, krogan, salarians, quarians, drell, volus, geth, elcor, hanar, vorcha, batarian… yahg? Enfim, o que houve com todos estes seres que habitavam este mundo?

Diversos fãs criaram teorias na tentativa de explicar o que de fato aconteceu no final, mas acho que é simplesmente isso. Fãs criando teorias. Alguns pontos delas são interessantes mas no fim das contas, as pessoas estão simplesmente se agarrando a qualquer coisa que não seja o final real.

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Atualização 08/04/12: Novo DLC grátis, servindo como extensão do final. Um pouco interessada em ver se as novas informações serão suficientes para explicar as crateras do enredo e do universo que a atrocidade deste final criou. Apesar de eu ter ficado verdadeiramente abalada com o final, a esta altura do campeonato eu já superei superei toda essa decepção e, francamente, estou ficando cansada do assunto. Não acredito na Indoctrination Theory, e pra ser sincera, quanto mais a considero, mais acho ela um pouco ridícula. Me parece óbvio que o final é simplesmente ruim e sem nexo, e que alguns estão simplesmente criando circunstâncias para tentar explicá-lo; se esta tivesse sido a intenção original da Bioware, eles nunca teriam finalizado o game do modo como fizeram — se Shepard tivesse sido doutrinado, por exemplo, o mais lógico seria no mínimo incluir Harbinger em alguma, qualquer uma, interação com o Comandante e isso não aconteceu. O laser disparado não conta. Em ME2, este reaper era uma figura constante ao longo da jogatina inteira, e é muito estranho pensar em Shepard ceder aos efeitos de controle dos reapers e Harbinger não ter uma linha de diálogo, nem uma provocação sequer. Se a teoria da Doutrinação fosse mais do que uma curiosidade criada pela mente fértil (e certamente mais competente do que quem criou o Starchild) de alguns fãs, isto estaria explícito. Parece algo óbvio, mas usando Occam’s Razor e “Às vezes um charuto é apenas um charuto” me faz perceber quão triste esta situação é, como o Jeremy Jahns disse em seu bom vídeo, que listei abaixo.

A única coisa que ainda me irrita um pouco em tudo isso é ver alguns correndo para defender a “integridade artística” dos envolvidos com o final de ME3, como se a arte não pudesse ser criticada ou nem mesmo estar ligada ao consumo (História da arte 101). Também é muito engraçado ver tanta gente que nunca jogou nenhum Mass Effect e nem mesmo sequer viu o final, ainda defendendo a Bioware. A razão pela qual os fãs estão reclamando e fazendo tanto estardalhaço é porque ME é uma série muito pessoal para eles, não porque somos todos necessariamente “entitled” (em ter direitos) ou mimados. Nós adoramos a série Mass Effect e a temos em patamares diferentes de outros jogos por motivos pessoais, seja a diversão/frustração de uma jogatina no modo Insanity, seja os diálogos incríveis escritos pelos mesmos caras que fizeram o final ou os personagens, que não existem no mundo real, mas os vemos como amigos e os tratamos como se eles existissem. Se você não tem esta conexão com estes jogos, desculpe, mas você simplesmente não está apto a compreender o porquê de nossa decepção com toda essa vergonha, para os dois lados. Enfim, vamos ver como o DLC se sai para julgar. Pior não pode ficar, certo?
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Há muitos outros argumentos feitos por pessoas melhor articuladas do que eu, então agora os deixo com referências de leituras, vídeos e o que seja, sobre o assunto. Estes vídeos são muito bons em explicar o porquê de toda essa controvérsia a respeito do final, de fãs para fãs. Esta lista estará sob constante atualização.

O vídeo do JeremyJahns a respeito do final é um dos meus preferidos de todo o debate.
Mass Effect 3 Ending and Why We Hate It! . assista, mesmo que apenas pela imitação do Garrus feita por ele.
Mass Effect 3 game review

O Angry Joe já é famoso, os vídeos dele, principalmente o top 10, são bons.
10 Reasons We Hate Mass Effect 3’s Ending
Mass Effect 3 Angry Review

Os vídeos do Archengeia são longos, mas super interessantes. No primeiro, ele dá uma ideia que poderia consertar um pouco as coisas e olha, seria bastante interessante:
Mass Effect 3 Ending: My Thoughts, What Could Have Been, What Should Have Been
Mass Effect 3: My Thoughts, Continued; Potential, Illusive Man, and Cerberus
Mass Effect 3: Responses to Comments, The Importance of Choice, and The Indoctrination Theory
Mass Effect 3: Extended Cut DLC, The Analogy, and The Choice We Face

Todos os finais de Mass Effect 3 juntos . é realmente patético.

r/masseffect . fonte básica para memes, boas discussões e grupos de apoio pós-final.

Mass Effect Community . não sei o que seria de mim sem essa comunidade e o r/masseffect. Aqui, um link direto para o post deles com reações do final.

Citações dos envolvidos com o ME3 pré-lançamento . uma leitura muito interessante, e eu me lembro de muitas destas entrevistas. Qual o sentido em criar tanto hype e fornecer informações simplesmente falsas se agora dizem que estão surpresos com o backlash?

Os artigos fodas e altamente recomendados da Forbes, sério.

All That Matters is the Ending, Part 2: Mass Effect 3 . uma análise detalhada a partir de uma perspectiva de arcos literários e tropes. Excelente leitura!

Why you enjoy art and the one problem with Mass Effect 3 . o texto é meio longo, mas juro, vale a pena. Leiam.

O que significa alterar o final de Mass Effect 3? . matéria do Ambrósia a respeito dessa confusão toda.

— Alguém criou o The Unnoficial Mass Effect 3 Epilogue Slides. Preencha as opções e veja o resultado!

Tópico com links para as inconsistências entre o que foi dito em entrevistas anteriores.

Tasteful, Understated Nerdrage: Additional Clarity and Closure.

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