antitérmico

Também conhecido como “Lição de casa que saiu fora de controle”

Joaquim se considerava um homem correto. Podia até não possuir grandes ambições, mas seu estilo de vida simples e frugal fazia com que sua vida parecesse ser mais descomplicada do que daqueles ao seu redor. Para ele, as pessoas são infelizes por escolha própria: não há fim para a ganância – compra-se um carro, deseja-se um novo apartamento. Dez anos depois, era uma casa na praia. E o que vem em seguida, Joaquim se perguntava. É um ciclo sem fim, e o ser humano se endivida e compromete sua moral para perpetuar seu sofrimento.

Seu pequeno apartamento era seu grande santuário: paredes brancas e frias, de móveis simples. Ele não juntava “coisinhas”, abominava as coisinhas. Imãs, panfletos e outras trivialidades não tinham lugar em seus aposentos. Sentia prazer em anotar de forma meticulosa telefones em sua agenda e fazer listas que nunca consultava – mas que o reconfortavam apenas por sua mera existência.

Joaquim também era justo e consciente. Não negava que o cotidiano cansava, torturava – mas sempre que o dia era difícil, batava que ele se sentasse no meio de sua sala vazia. A temperatura baixava. O mal-estar desaparecia. Sua tremedeira se acalmava. Ele estava curado.

Em um dia como qualquer outro, Joaquim voltava de seu trabalho à pé como sempre fazia. Já estava perto de seu apartamento, atravessava uma rua, contava as faixas de pedestre. Algo o compeliu a encarar uma figura de vermelho que vinha ao seu encontro. Ela o atingiu em cheio, e ele pausou para controlar a súbita tontura. Ela já havia desaparecido, era quase um vulto quando Joaquim se virou para encará-la. Tentou se recompor e voltou correndo para casa.
Sentia calafrios e ele estava positivo de que havia pego uma doença. Queimava de febre, mas suas mãos estavam geladas. Correu para o chão da sala, encarou as paredes brancas intermináveis. Esperou dez, trinta, setenta minutos e só então ele finalmente sentiu os delírios se acalmarem.

No dia seguinte, acordou com algo dentro de si. O vírus ainda não havia deixado seu sistema.

Joaquim se arrumou para o trabalho como sempre fez, mas em vez de duas xícaras de açúcar, derrubou metade de uma e o café ficou amargo. Por causa da visão turva, quase errou a porta do banheiro, que era branca como as paredes. Seu relógio de pulso conseguiu se perder no vazio do seu apartamento e sua dor de cabeça o impedia de ficar se arrastando para encontra-lo. Esqueceu-se por um momento da ordem dos cadarços e acabou com um nó em vez dos habituais dois. Acabou saindo mais tarde e encontrou as ruas mais cheias do que o normal e por isso ele ergueu o olhar, para que não esbarrasse em ninguém no caminho. Teve alguma esperança em reencontrar a figura rubra que tanto o atormentava, mas ninguém usava cores tão fortes à caminho do trabalho. A lembrança daquela súbita mazela pesou em seu estômago, ou talvez fosse apenas o café. Tropeçou subitamente e a velha mulher ao seu lado lhe lançou um ar de pura desaprovação, como quem imagina: “Esse não sabe nem andar direito”.

Seus cadarços estavam desamarrados. Tudo estava errado. Como bom hipocondríaco, imaginou terríveis doenças que poderiam estar proliferando em seu sistema naquele exato momento. Sentia a febre piorar a tal ponto que sua própria visão parecia adquirir um tom rubro. Tudo queimava. Ele decidiu ir direto para o hospital.

O lugar era branco, mas isso torturava ainda mais a sua visão e o confundia, enquanto ele tentava enxergar além das visões vermelhas de febre.
Percebeu que o médico falava com ele, mas Joaquim encarava a luz da sala, que criava efeitos ainda mais confusos para sua visão atormentada. Pelo menos, até que era bonito.

O médico pediu sua atenção e Joaquim pareceu olhar para ele pela primeira vez. O médico disse:

— É uma inflamação, você vai precisar trocar o seu remédio.

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