Sansa, a heroína

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Por que Sansa Stark é a personagem mais forte em Game of Thrones

por Julianne Ross
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NOTA: Spoilers para as primeiras três temporadas de Game of Thrones. Este post se baseia na série de televisão.

A nova temporada de Game of Thrones chegou, e com ela, temos também o retorno do passarinho mais triste de Westeros. Pobre Sansa Stark — quase todos que ela amava estão mortos, ela foi forçada a casar com um membro da família que os matou e toda vez que ela acha que pode finalmente escapar de King’s Landing, suas esperanças são destroçadas.

E ainda por cima, a Internet a odeia.

A filha mais velha dos Stark é comumente citada como uma das personagens mais detestadas de Game of Thrones, o que realmente nos diz muito; este é um seriado cujo rei acorrentou uma prostituta e a assassinou com uma balestra, então é um pouco estranho o fato das pessoas estarem criticando uma jovem adolescente pelo crime de ser “completamente inútil e chorona”.

Não por coincidência, Sansa Stark é também uma das personagens femininas mais clássicas da série. Ela pode ter a bondade e força mental para colocar o resto da sociedade Westeriana para trás, mas também tem uma queda por romance, castelos e vestidos bonitos (o que é compreensível, uma vez que sua cabeça foi preenchida por contos de cavalaria a respeito de lordes e senhoras ao longo de sua vida inteira).

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As pessoas odeiam Sansa não por ela errar, mas porque ela tem a audácia de agir como uma menina.

Há um elemento de desconfiança, se não escárnio total, da feminilidade em suas ações em particular por parte dos fãs, que não é considerada na crítica da série como um todo, o que revela muito sobre o que prezamos nas mulheres nas telas. Por mais enganada que Sansa fosse em um primeiro momento (e sua ingenuidade inicial é punida de sobra), ela recebe uma quantidade de ódio dos fãs que é desproporcional simplesmente pelo fato dela não se encaixar no arquétipo de “personagem feminina forte” por quem estamos todos acostumados a torcer.

Enquanto a sua irmãzinha moleca Arya, universalmente adorada, revira os olhos para qualquer coisa feminina e adota uma espada — um significante masculino de força — Sansa se conforma com seu papel da senhora nobre e obediente, função pela qual ela foi preparada desde seu nascimento. Apesar de sua graciosidade, bons modos e habilidade inata de fazer o papel de senhora a mantiverem viva na corte, é justamente por esta transgressão que ela é tida como “incrivelmente irritante”, seus erros não serem facilmente perdoados e sua coragem posta de lado.

Outros personagens que agem com igual e arrependida ingenuidade não ganham o mesmo nível de animosidade dos fãs: o amor insensato de Sansa por Joffrey pode ter sido um dos fatores que levam sua família para a capital, mas foram os impulsos românticos de Robb que o levou à sua morte e à de sua mãe, além da dissolução de seu exército. E qualquer que seja o papel involuntário de Sansa na morte de seu pai, a queda de Ned Stark se deu principalmente por sua própria aderência teimosa ao sistema de nobreza o qual ele foi ensinado — o mesmo sistema que Sansa aprendeu a acreditar que a recompensaria se agisse como uma senhora apropriada.

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Como a autora Casssandra Clare aponta, as pessoas não odeiam Sansa porque ela comete erros, mas porque ela têm a audácia de errar enquanto ainda age como uma garota.

O ódio que Sansa recebe é ainda mais frustrante se você considerar que, até a 4º temporada, ela é uma das poucas personagens morais da série. Ela fez coisas idiotas (que podem, novamente, ser resumidas à sua criação como filha de um lorde), mas ela também arriscou sua vida por outros, como o Ser Dontos, e sua bondade generalizada incute em múltiplos personagens o desejo de protegê-la.

Neste momento, Sansa pode não ter a sede por sangue de Arya, nem a força física de Brienne, a astúcia política de Cersei ou a ambição de Daenerys (ou, sabe, os seus dragões), mas ela ainda assim é uma das personagens mais fortes da série. Acontece que não estamos acostumados a reconhecer sua força pelo que ela é.

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As personagens femininas que tendemos a aclamar tipicamente seguem uma fórmula particular de força, uma que quebra o molde patriarcal de como uma mulher deveria se comportar. Isto nos dá poder, mas esta constante regurgitação do único modelo de “personagem feminina forte” limita os tipos de mulheres que vemos nas telas e ignora os méritos daquelas que se provam de formas diferentes. Assim como personagens masculinos não são confinados aos mesmos padrões, atributos tipicamente tidos como “femininos”, como paciência, bondade e adaptatiblidade não deveriam ser entendidos como intrinsicamente piores do que características “masculinas”, como força física ou a habilidade de liderar um exército.

A sociedade intensamente patriarcal de Westeros dá às mulheres apenas dois caminhos para o sucesso: elas podem ou seguir o sistema, ou rejeitá-lo completamente. Arya literalmente finge ser um menino para fugir de King’s Landing, mas Sansa se protege com a máscara de uma senhora apropriada para sobreviver. Isto não deveria torná-la menos digna de respeito. Ela apenas oferece uma alternativa à narrativa de como as mulheres podem navegar em um mundo dos homens. Sansa pode ser bem feminina, mas ela não é fraca; ela encontra sua força em sua própria feminilidade.

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Sophie Turner, a jovem atriz que interpreta Sansa, recentemente defendeu sua personagem. “Sansa é uma das personagens mais inteligentes do seriado”, Turner disse à You Magazine. “Ela está tramando tudo em sua cabeça desde o dia número um. Ela é o curinga.”

Espero que ela esteja certa. Ser feminina não é incompatível com o heroísmo. E poder sobreviver em King’s Landing e ainda manter sua humanidade no processo mostra que Sansa Stark é de fato uma heroína.

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