república das crianças

[O Poliedro] é uma torre especular que desafia as leis da performance material, da ótica e da gravidade. É habitado por crianças. Seu criador, Peter Stamatin, foi um arquiteto genial, mas mesmo ele não fazia ideia do que havia construído. Ele possuía, entretanto, uma suspeita – e foi isto que o aterrorizou a tal ponto dele preferir se afogar no álcool para tentar afastar esta compreensão.

Fiz mais ou menos a mesma coisa dez anos atrás. “Aqui está uma torre”, eu disse. “Ela é a materialização de um milagre. As crianças podem senti-la, então decidiram viver por lá. Mas tentar compreendê-la é algo perigoso para nós que somos adultos, e a torre é um local fora dos limites para nós. Vamos deixar por isso mesmo. Permita que esta construção seja um símbolo de si mesma”.

Ao fazer isso, evitei as acusações de estar mentindo, mas então acabei me delatando por um pecado ainda maior: o da timidez. Pensei demais na casca externa do Poliedro (ou seja, como ele se parece para o olhar adulto, por assim dizer), e me esforcei para não ter que olhar o seu interior. Aqui estão os fatos que eu sabia:

  • um complexo e delicado balanço de superfícies especulares deu vida a um efeito ótico especial e singular;
  • o Poliedro não é estático; ele balança de um lado para outro, e o alcance de sua ginga intensifica este estranho efeito;
  • foi este efeito que atraiu as crianças, encorajando-as a fundar sua própria mini-república em seu interior;
  • o Poliedro é fora dos limites para os adultos;
  • os adultos nunca se incomodaram o suficiente para protestar – eles sentiram que havia uma razão por trás disso, então resolveram permitir que suas queridas crianças vivessem desta forma.

[…] As crianças são diferentes. Elas não são nem os monstros desalmados de William Golding ou dos irmãos Strugatsky, nem as encarnações da pureza retratadas pelo escrito russo Vladislav Krapivin. Elas são criaturas completamente ímpares que não foram muito além da borda que separa a existência da não-existência. Suas emoções são mais agudas, seus pensamentos são diferentes; elas conseguem se lembrar vagamente de algo que já foi há muito esquecido pelos adultos, e elas também enxergam coisas invisíveis a nós.

As crianças são os personagens mais importantes do nosso jogo. O Poliedro as permitiu encontrar uma forma e imagem que representasse a sua existência alternativa. A República Proibida das Crianças permaneceu nos panos de fundo no Pathologic original. Mas é exatamente esta República – sua estrutura, suas regras e sua ideia – que guarda a chave para a verdade por trás dos eventos do game.

Temos uma nova oportunidade de espiar o interior do Poliedro. A última chance. Desta vez, pretendo atravessar esta porta.

Nikolay Dybowski

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